A famosa cobertura da família Guinle no Flamengo, no Rio de Janeiro, é o maior e mais caro apartamento do Brasil. Conhecido pela sua suntuosidade, o imóvel ocupa o topo do histórico Edifício Tucumã, na Praia do Flamengo.
A Origem e o Motivo da Construção
A construção do edifício, na década de 1940, foi motivada por questões de segurança. Após o primogênito do clã, Eduardo Guinle, sofrer um atentado a agressões dentro de sua mansão (hoje Palácio das Laranjeiras) devido a uma disputa de dívidas, seu irmão Carlos Guinle decidiu que morar em um prédio fortificado seria uma alternativa mais segura para a família. Nos anos 1950, o local transformou-se no famoso quadriplex da família.
Grandiosidade e Arquitetura
O icônico edifício foi projetado pelo famoso arquiteto francês Joseph Gire (o mesmo responsável pelo Copacabana Palace):
Tamanho: O apartamento possui cerca de 3.900 metros quadrados divididos em quatro andares.
Estrutura de Casa: Conta com spa, salas de massagem, quadra e até uma estrutura de churrascaria interna.
Áreas Sociais: Os dois últimos andares são dedicados exclusivamente a eventos, festas suntuosas e áreas de lazer.
O Estilo de Vida e as Histórias
A cobertura foi palco de festas lendárias da alta sociedade carioca nos anos 50 e 60, comandadas pelo icônico socialite Jorginho Guinle. O local hospedou celebridades e estrelas de Hollywood, além de ser um ponto de encontro de músicos como Dorival Caymmi e o ex-Beatle George Harrison.
Cenário de Filmes e o Mercado Atual
Devido à sua magnitude e opulência, os andares de festa do imóvel são eventualmente alugados para produções audiovisuais. O espaço já serviu de cenário para a série "Dom" (Prime Video), para novelas da TV Globo como "O Outro Lado do Paraíso" e para o cinema nacional. Atualmente, o imóvel segue no mercado de luxo e já chegou a ser anunciado com valores que ultrapassam a casa dos dezenas de milhões de reais.
Cobertura da familia Guinle serve de cenário para séries, novelas e festas de luxo, no Flamengo
O endereço nobre já recebeu gravações de "Dom" e de "O outro lado do paraíso", além de ser alugado para receber convidados, nos dois últimos andares.
A mais cara cobertura à venda no Brasil teve, em sua origem, um caso de violência ligado à cobrança de uma dívida. No início de 1931, Eduardo Guinle, o primogênito do clã, foi agredido na cabeça pelo carpinteiro Francisco Russo, a quem devia dinheiro pelos serviços prestados. O crime aconteceu dentro de sua mansão, hoje conhecida como Palácio das Laranjeiras. O episódio, segundo consta do livro Os Guinle – A história de uma dinastia (Intrínseca), do historiador Clóvis Bulcão, impressionou Carlos, seu irmão, que então vivia em um palacete na Praia de Botafogo. Passado um tempo, ele e sua família decidiram mudar para um imóvel que oferecesse mais segurança. A saída encontrada foi iniciar a empreitada para construir o famoso triplex do Edifício Tucumã, na Praia do Flamengo, que hoje está em busca de comprador pela bagatela de R$ 59 milhões.
A agressão a Eduardo Guinle revelou o estado pré-falimentar em que se encontrava um dos mais prestigiados membros da família e repercutiu por dias na imprensa carioca como o "atentado do palacete do morro dos Ingleses", segundo informa Bulcão. Em 10 de março de 1931, O GLOBO publicou, em sua edição das 18h: “Mysterioso attentado. O Dr. Eduardo Guinle violentamente aggredido. A victima recebeu, ao que se presume, fractura no craneo” (respeitada a grafia da época). Nada mais natural que o irmão ficasse ressabiado. Para viabilizar a mudança de endereço, Carlos Guinle — que nem de longe padecia dos mesmos problemas financeiros do irmão — fechou a venda do seu palacete para o governo argentino.
Em 24 de maio de 1937 o negócio foi consumado e a mansão — palco de recepções memoráveis com visitantes tão ilustres quanto os herdeiros da coroa britânica, entre eles o Duque de Kent, que se tornaria o rei George VI, pai da rainha Elizabeth II e avô do atual rei Charles III, e o presidente norte-americano Franklin Delano Roosevelt — foi vendida por 7,3 mil contos de réis. Parte do pagamento foi o terreno, no Flamengo, onde a empreiteira Pederneiras construiria o Edifício Tucumã com a famosa cobertura dos Guinle.
— Essa cobertura foi feita para atender aos padrões de requinte exigidos pela família. É sob medida, por exemplo, para as obras de arte do Dr. Carlos Guinle. O pé direito foi dimensionado com especificações para os quadros da sua coleção, não é um pé direito normal — diz Clóvis Bulcão.
Quando os Guinle concluíram a mudança, a mansão da Praia de Botafogo passou a ser ocupada pelo corpo diplomático argentino. Houve uma ocasião, em que a então presidente do país, Evita Peron, se hospedou ali. Ao saber disso, Jorginho Guinle, filho de Carlos, que havia crescido na casa, foi até o local para conhecer a famosa líder.
— Ele se sentiu em casa, entendeu? Já que ela estava na casa que tinha sido dele foi até lá sem marcar, sem avisar. Claro que foi barrado — conta Bulcão.
Segundo o autor, o palacete dos Guinle em Botafogo foi uma das fontes de inspiração da escritora Carolina Nabuco, que foi vizinha dos Guinle, para escrever A Sucessora (1934). O livro, anos mais tarde, foi adaptado e virou novela de sucesso na TV Globo. Antes disso, a obra, que havia sido traduzida para o inglês pela própria Carolina e enviada para um agente em Nova Iorque, esteve no centro de uma polêmica sobre plágio. Alguns anos depois do envio da cópia para os Estados Unidos, a escritora Daphne du Maurier publicou Rebecca, romance que guarda muitas semelhanças com o livro da autora brasileira. O fato chegou a ser registrado no The New York Times Book Review, prestigiado suplemento dominical do The New York Times.
O livro escrito por du Maurier, por sua vez, foi adaptado para o cinema em 1940 e tornou-se um dos clássicos da filmografia de Alfred Hitchcock. Lançado no Brasil com o título “Rebecca, a mulher inesquecível”, tinha no elenco Joan Fontaine e Laurence Olivier. Em 2020, foi lançada uma refilmagem com o mesmo nome dirigida por Ben Wheatley.
— Esse livro é tão marcante que ele na verdade foi plagiado e virou Rebecca no cinema. É um clássico e a casa tem um papel fundamental no filme. Na verdade essa casa é toda inspirada na mansão da Praia de Botafogo — diz Clóvis Bulcão.
O palacete que precedeu a cobertura como lar dos Guinle foi demolido na década de 1970. Em seu lugar foi erguido o Edifício Argentina. Presentes desde a época do imóvel original, as palmeiras que ainda hoje adornam a entrada do prédio são a última lembrança do tempo de luxo e glamour vividos pelos Guinle naquele lugar.
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